Crônicas

Contos de Invasões

Três contos curtos que ilustram formas como seres de outros mundos alcançam Adamar.

O Milagre do Mago

Em um desses mundos paralelos existiu um grande feiticeiro com uma ânsia infindável por poder. Esse feiticeiro estudou, buscou e encontrou diversas maneiras de ficar mais forte, e cada vez mais poderoso. Ele juntou itens mágicos, fez rituais profanos, destruiu o conceito de vida e morte, até que por fim se tornou o último ser de um mundo em ruínas, deixando-o totalmente drenado.

Em sua embriaguez infindável de poder esse feiticeiro descobriu como transpor a divisão dos mundos e pôs seus olhos em um mundo totalmente novo e recheado de vida para ser consumida.

Esse feiticeiro então ao longo de séculos tentou e tentou repetidamente influenciar esse mundo, tentando cada vez mais diminuir a barreira que separava o mundo dele do mundo alvo. Ao longo de séculos ele fez sua magia atravessar a barreira e causar efeitos inexplicáveis às pessoas do mundo alvo.

Sem se dar conta do que estava sendo feito e alheios a qualquer coisa acima de suas cabeças, as pessoas do mundo alvo chamaram os acontecimentos de milagres, e então criaram mais um deus em seu panteão para atribuir esses milagres.

O Pai e o Demônio

No mundo real um pai chega em casa bêbado. Ele passou da meia idade, lutou em algumas batalhas em nome do rei e por isso perdeu seu braço esquerdo. Ele teve uma noite ruim no bar e perdeu dinheiro. Ao chegar em casa presumiu que sua filha de onze anos fosse a culpada.

Como em tantas outras noites ao longo de seus últimos anos de vida ela sentiu medo ao ver seu pai chegando naquele estado, ela sabia o que estava por vir. Já apanhara antes e isso não lhe era novo, porém naquela noite havia algo diferente, uma maldade nos olhos do pai que não era apenas causada pelas bebidas e drogas que ele usava para aliviar suas dores.

Ela sentiu o punho fechado de seu pai muito mais pesado do que os tapas que usualmente aguentava. Ele não gritava com ela enquanto a batia, como fizera outras vezes, apenas rilhava os dentes e descontava sua raiva sem fim.

O pai só se deu conta do que estava fazendo com sua única filha quando já faziam minutos que a criança havia parado de se mexer, então começou a chorar.

Três dias depois um homem veio até a casa desse pai cobrar uma dívida e encontrou o corpo dele ao lado de sua filha no chão.

Em um lugar muito longe dali, impossível de se alcançar de cavalo ou navio, um ser maléfico e sádico ria ao conseguir colocar outra cria sua no mundo, graças aos pecados do pai.

O Soldado e a Menina

Um desertor comum de um exército comum acampava no topo de uma colina coberta por árvores. Conseguiu depois de muito e a muito custo pegar um coelho, ainda saboreava seus restos quando ouviu um farfalhar entre as árvores.

Ao lado da luz e calor aconchegantes da fogueira, todo o resto ao redor era sinistro e escuro naquelas horas da noite, mesmo para um ex-soldado. Das árvores surgiu uma menina em frangalhos, caindo no chão da clareira ao perder o apoio dos troncos das árvores.

O desertor ao ver que era apenas uma menina correu até ela e a levantou. Seus dedos encheram-se de sangue ao apoiar sua barriga, estava muito ferida e sangrando, cheia de hematomas.

Levou-a para a luz da fogueira e ela lembrou-lhe sua própria filha, falecida anos atrás por conta de uma doença enquanto ele estava na guerra. A culpa da morte da filha o atormentava desde aquele dia, desde o dia de sua deserção.

Decidiu que não deixaria acontecer com aquela menina o mesmo que acontecera com sua filha e pela primeira vez na vida ele rezou. Ele não sabia ou não lembrava mais como fazê-lo, mas mesmo assim o fez como pôde.

Implorou aos céus e à terra a cura e a recuperação daquela menina, prometeu tudo que tinha e sua completa devoção. E então ouviu uma resposta no vento. Sussurros e luzes em sua mente forçaram-no a fechar os olhos, e quando conseguiu os abrir viu que a menina estava acordada, sem mais sangrar.

O desertor descobriu que a menina era uma órfã, e prometeu ajudá-la a partir daquele dia. Levou-a para sua casa e tratou-a como uma filha. Voltou ao exército para receber o soldo do rei e conseguir proporcionar uma vida melhor para ela, estava decidido que faria diferente.

Tudo ocorreu bem por mais ou menos um ano, quando perdeu um de seus braços em batalha e precisou se aposentar.