Crônicas

Vinda para Roestia

Compilação de relatos sobre o Grande Êxodo e a chegada em Roestia, organizada por Orlen Marest a partir de documentos recolhidos entre sobreviventes do desembarque.

Prefácio do cronista

Escrevo estas páginas já velho, com as mãos mais lentas do que a memória, nos últimos anos que me restam nesta terra para a qual fui trazido quando já não era tempo de viajar. Servi como escriba nas ilhas por décadas antes do Êxodo, e foi essa circunstância — e nenhum mérito meu — que me deu acesso ao arquivo quando veio a hora de embarcar. O que coube em caixas e baús eu trouxe. O que não coube, pedi a cada família que o trouxesse pelo seu lado, e transcrevi no convés durante a travessia, por luz de lampião, enquanto ainda era possível.

Não me cabe contar o Êxodo como história minha — foi história de todos nós, e cada família trouxe sua própria versão. O que tentei aqui foi reunir o que coletei: cartas, registros de porto, folhas de bordo, sermões lidos no convés, memoriais escritos em vigília. Onde o relato é de outrem, cito. Onde é meu, assino.

O. Marest, cronista

I. Das duas terras que restaram

Os antigos falavam de um mar grande e cheio de reinos, que diziam Mar das Nações. Esse mar nós nunca vimos. Quando a Praga Vermelha passou por ele, pouco restou — e nada que voltasse para contar. Apenas dois povos foram poupados, e por motivos parecidos: estávamos longe, e quisemos permanecer longe.

Nós, das Ilhas do Oeste, afundávamos os navios que tentassem atracar. O registro do porto de Merlain, que ainda guardo, traz em letra firme a mesma ordem repetida em doze anos consecutivos: "expulsar; se insistir, afundar". Não era crueldade — era a única medicina que conhecíamos para aquele mal.

De Indacor pouco sei em primeira mão. Os indacorianos que conheci depois, já em Roestia, descreveram o mesmo cuidado: fechadura posta na porta do mundo, chave jogada ao mar. Suas terras geladas do norte faziam por eles boa parte do serviço. Isolaram-se antes mesmo de termos certeza do que temíamos.

II. Da chegada da Praga às ilhas

Não foi de uma vez. Quem conta o contrário mente, ou conta por ouvir dizer.

Guardo aqui o trecho de uma carta, encontrada entre os pertences de uma senhora de Fontest que veio conosco no navio Pássaro de Inverno. A carta havia sido escrita por um primo dela, ainda nas ilhas, e é datada do ano anterior ao Êxodo:

"Prima, o barco veio de onde não devia. Chegou à enseada de Oster na quinta-feira. Os homens do porto fizeram como mandam os costumes, mas um dos marinheiros já estava em terra antes do aviso. Não sabemos para onde foi. Avisa os teus."

Três anos depois a enseada de Oster estava vazia. Meu próprio pai dizia que a Praga era paciente — podia dormir num corpo até o neto nascer — e foi isso que nos venceu. Quando notamos, já estava em nós.

III. Do Êxodo

Em 861 d.u. os reis convocaram os navios. Todos os navios. Houve discussões amargas nos cais sobre quem embarcava e quem ficava, e eu estava lá — já com cabelos brancos, tentando decidir que estantes do arquivo caberiam e que estantes ficariam. Levei o que pude. Do restante não sei o que restou, se é que alguma coisa restou.

No mesmo ano, segundo me disseram depois os clérigos de Indacor, o norte fez o mesmo. Não havia combinação entre nós. Fugíamos da mesma coisa em direções que não sabíamos ainda.

Do diário de bordo do capitão Vels, navio Gralha do Sul, dos primeiros meses da travessia:

"Dia quarenta e dois. Água racionada. Dois enfermos no porão, isolados. Não dizemos à tripulação o que temos nos porões. A bandeira vermelha está pronta na arca, mas não ainda."

A bandeira vermelha era o aviso de praga a bordo. Muitos navios a hastearam. Alguns nunca foram vistos de novo.

IV. Do desembarque

Em 865 d.u. tocamos terra. Nós, das Ilhas, pelo sudoeste. Indacor, pelo sudeste. Nenhum dos dois povos sabia da chegada do outro — e só viriam a saber anos mais tarde, como está no registro seguinte.

Os primeiros tempos foram de escolher praias e morrer nelas. Os navegadores das ilhas tinham ofício; os lavradores e os escribas, como meu pai, não serviam para desbravar costa. Foram os pescadores e os calafates quem nos manteve vivos no primeiro inverno.

Depois, com as famílias que sobreviveram ao primeiro ano, começou-se a erguer o que hoje se chama Reino das Ilhas — ainda um só reino, então.

V. Da divisão

A divisão veio em 871 d.u., quando souberam dos indacorianos. Chegou pelas cartas de um mercador chamado Hurren — tenho cópia de uma delas, endereçada ao rei:

"Senhor, há homens do norte em terra firme, a oito dias de viagem. Dizem ter fugido da mesma Praga. Não sabem de nós. Imploro prudência ao senhor: se levarem a doença, ela nos alcançará em um mês."

O pânico que se seguiu lavrou a guerra civil. Os que pediam guerra preventiva, os que pediam isolamento absoluto, os que pediam aliança — nenhum partido cedeu. Ao fim, três governos se partiram do antigo: Quederia no sul costeiro, Montar nas florestas e serras do oeste, Fontest no extremo leste, voltado para as fronteiras. Foram estes os três que os meus netos conhecerão por reinos, como se sempre tivessem sido.

VI. Do que esta terra não tinha

Devo registrar, enquanto há tempo, uma coisa que notei e que poucos de meus contemporâneos quiseram escrever.

Nas ilhas se falava pouco de magia, mas se falava. Aqui em Roestia, desde que chegamos, ninguém fala. Não por proibição — por ausência. Não há milagres, nem maus agouros, nem crianças nascidas com o dom. Os clérigos rezam e suas rezas soam como rezas, não como chamados atendidos. A própria palavra bruxaria se esvaziou: é suspeita atirada a quem destoa, não descrição de coisa vista.

Os velhos das ilhas, do meu tempo, diziam que a terra estava "seca". Não sei dizer se é seca, se é outra coisa, ou se é só a idade que me faz não sentir o que os jovens sentem. Deixo a anotação a quem vier depois. Talvez o filho dos nossos filhos tenha os olhos para ver o que a nós escapou.