Crônicas

A Praga Vermelha

Compilação de documentos, cartas, receitas e relatos recolhidos por Orlen Marest ao longo de sua vida, sobre a doença que os povos do Grande Mar das Nações vieram a chamar de Praga Vermelha.

Prefácio do cronista

Poucos papéis me custaram mais do que estes. Os que vieram das ilhas eu podia copiar de livro aberto, no arquivo, à mesa. Estes não — vieram aos pedaços, cada folha com sua história de como chegou até mim.

Alguns foram retirados de roupas de homens mortos, achados desembarcados por correntes nas praias do sul das ilhas. Outros tirei eu mesmo de garrafas de vidro recolhidas por pescadores — o mar devolvia com alguma frequência, nos anos antes do Êxodo, mensagens seladas em breu. Outros ainda foram-me ditados por moribundos, homens e mulheres que já sabiam que não passariam daquela semana e quiseram deixar anotado o pouco que ainda sabiam.

Nada aqui é meu. Assino apenas o trabalho de juntar.

O. Marest, cronista

Fragmento I — Receitas do mestre Arben, cirurgião

Folha solta, sem capa, tinta borrada nas margens. Retirada do forro de um casaco de homem dado como morto na praia de Oster, data estimada ~795 d.u.

"Primeiro sinal varia. Em um, pele amarela tirando ao vermelho; em outro, a cor vem só na segunda semana. Febre sempre. Cólera de estômago em todos os que observei, sem exceção. O que me preocupa não é o sinal que se vê — é o que não se vê. Tive em minha mesa três corpos no último mês, e de dois deles nenhum familiar havia notado doença. Um pai morre espumando ao lado da esposa que parece sã, e três meses depois é a esposa que morre. Ela carregava já havia anos. Recomendo ao senhor prefeito que proíba o matrimônio com forasteiros até que se entenda isto."

Fragmento II — Carta de Belem, mercador, ao irmão

Encontrada dobrada em quatro dentro do gibão de um homem morto, aportado por corrente num ancoradouro do oeste. O selo não foi quebrado em vida — a carta nunca chegou ao destinatário.

"Irmão, se esta carta chegar, queima-a e lava as mãos em vinagre três vezes. Eu te escrevo de Porto Vermes, quarto dia de febre. O capitão morreu ontem, e antes dele o contramestre, e antes dele o filho do cozinheiro que tinha sete anos e não fez nada a ninguém. A doença é como fogo em palha seca aqui. Diziam que vinha só com o suor — é mentira; meu companheiro de quarto não me tocou em dois meses e está pior que eu. Não voltes ao Mar das Nações. Leva tua mulher e os meninos e vai para a serra. Não escrevas de volta. Não te despeço porque creio que te verei em breve, não no mesmo lugar."

Fragmento III — Mensagem em garrafa, sem assinatura

Garrafa de vidro verde, selada com breu, recolhida por um pescador chamado Turim em 828 d.u., a oeste das ilhas. Papel amarelado, letra de quem já não tinha força na mão.

"A quem achar isto. Somos trinta e dois a bordo, éramos trinta e dois. Agora somos quatro, e dois desses não acordam. O rei mandou soldados para impedir que atracássemos, então partimos ao mar com o que tínhamos. A água acabou ontem. Não sei em que direção vai a corrente. Se esta garrafa chegar a terra firme, que Deus vos guarde, e que não chegueis a nós."

Fragmento IV — Últimas palavras de Maren Osta, ditadas a este cronista

Registrado em 858 d.u., na enfermaria dos velhos das ilhas. Maren tinha, segundo a própria, oitenta e dois anos. Falou baixo, em fragmentos; reconstituí o texto de minhas notas logo após sua morte.

"Meu pai matou minha mãe, meu irmão e minha irmã mais nova com os próprios punhos. Eu estava atrás do barril de farinha. Ele não me viu. Depois sentou-se no chão e começou a chorar, e depois começou a rir, e depois a boca dele encheu-se de espuma com sangue e ele morreu. Eu fiquei três dias atrás do barril porque não sabia se ele ia levantar. Tinha sete anos. Isso foi no mesmo mês em que o rei de Duranda declarou guerra a Velde, que era aliada dele havia trinta anos, por motivo nenhum. Os soldados voltaram contando que os companheiros se mataram entre si no campo, sem que o inimigo precisasse atacar. A Praga enlouquecia antes de matar. Era parte dela. Quem escreveu as crônicas dos reinos não quis escrever isso, mas eu vi. Anota tu, moço."

Fragmento V — Do registro do porto de Merlain

Trecho de livro de entradas do porto, ano 834 d.u. Letra do escrivão Henn, cuja caligrafia reconheço de outros documentos. (Este mesmo livro é citado em Vinda para Roestia.)

"Nau de bandeira estrangeira tentou atracar ao amanhecer. Expulsa conforme ordem permanente. Insistiu. Afundada às dez horas por três balas de catapulta. Nenhum sobrevivente recolhido, por ordem. Seis corpos boiaram até o cais ao entardecer. Queimados na duna norte. Vinagre distribuído aos soldados e ao escrivão que assina."

Fragmento VI — Sermão do padre Iruel, lido em praça, copiado por um ouvinte

Cópia de segunda mão, feita por um fiel anônimo, encontrada entre os papéis de uma família de Fontest que veio comigo no navio Pássaro de Inverno. Datação incerta, provavelmente entre 850 e 860 d.u.

"Dizem os que viajam que nas bordas do velho mar ainda há homens. Não são homens como nós. Têm a pele da cor da Praga, e pústulas que nunca secam, e vivem em dor que os mortais não suportariam se a tivessem de uma vez só — mas eles a têm aos poucos, dia após dia, e por isso vivem. Fazem filhos. Os filhos nascem iguais. Chamam a Praga de mãe e de senhora, e rezam a ela como nós rezamos a Sirelia. Irmãos, não é gente. É o que a Praga deixou de gente. Se os vires, não te aproximes. Se te falarem, não respondas. Se te tocarem, corta o que te tocou."

Nota de fechamento

Não pude recolher documento algum do próprio continente — ninguém voltou de lá em tempo de trazer. O que chegou foi o que o mar quis trazer, e o que os moribundos quiseram deixar. Sei que esta compilação é pobre diante da verdade do que se passou no Mar das Nações. Mas é tudo o que há, e é mais do que se a deixássemos se perder comigo.

Que quem ler isto cuide bem do papel. Não há cópia.

O. Marest, cronista