Crônicas

Mito da Criação

Conta como Adamar foi quase destruída nos primórdios e salva pelo sacrifício de três deuses antigos.

Diz-se que nos primórdios de Adamar a humanidade erguia-se tão vasta e próspera que suas maravilhas e criações iam além da imaginação. Havia quem falasse de grandes torres tocando o céu, e de salões ocultos sob a terra que pareciam chegar aos pilares da criação. Nessas eras distantes, pessoas hábeis em artes fabulosas modelavam o próprio mundo com seus dons.

Então, por razões que só as estrelas podem conhecer, surgiram criaturas de poder desmedido, tão terríveis que muitos as julgavam divindades vingativas ou demônios despertos. Talvez atraídas pela inveja ou desejo, elas rasgaram o firmamento do céu e da terra, irrompendo em Adamar e trazendo consigo uma fome voraz de destruição. Mesmo as mais poderosas magias dessa antiga civilização nada puderam contra tal ímpeto sombrio; as cidades foram aniquiladas e a vida foi varrida do mapa.

Quando a vitória dessas entidades já se mostrava certa, poucos deuses de Adamar escaparam, ajudados por fiéis mortais. Falava-se que fugiram em desespero ao vazio desconhecido, pois não restava esperança naquela hora funesta.

Passaram-se eras incontáveis. Ninguém sabe dizer se foram séculos ou milênios. Mas então, conta-se que um dia aqueles deuses exilados voltaram. Encontraram o lar em ruínas, um deserto morto que pouco lembrava os tempos de esplendor. Eram apenas três, diz a lenda: Almora Thal, Baleal e Sirelia. Já não possuíam forças suficientes para restaurar Adamar por si sós. Assim, repartiram o que lhes restava de poder com seus companheiros mortais, elevando-os a um patamar divino. Em troca, consumiram o que ainda os fazia deuses distintos.

Não sendo suficiente conceder apenas parte de sua própria centelha, esses salvadores entregaram tudo de si até se tornarem parte do mundo que tanto amavam. Não mais deuses, não mais mortais, mas algo além, dissolvidos em cada sopro de vida e em cada gota do mar.

Nesse ato final de entrega, Almora Thal, a portadora das almas e guardiã do esquecimento, colocou fim às feridas do passado e abriu espaço para que o mundo renascesse sem a mancha da destruição passada; Sirelia, devotada à cura, purificação e sacrifício, lavou as cicatrizes deixadas pelos invasores e deu tudo de si para nutrir novas vidas e fazê-las brotar; enquanto Baleal, senhor da justiça e da verdade, pôs ordem ao caos reinante e expurgou a mácula deixada, garantindo que Adamar se erguesse novamente sobre pilares sólidos.

E desde então, ao observarmos a terra, sentimos o sopro dos ventos ou ouvirmos o canto das folhas, cremos que é a memória desses antigos salvadores que ressoa no coração de Adamar. Assim a vida foi restaurada e, queira ou não a fortuna, permanece sob a benção daqueles que um dia se sacrificaram para que houvesse um novo amanhã.